MEMóRIA DE PASSARINHO - PROSA EM FICçãO.
PROSA:
MEMÓRIA DE PASSARINHO
Celito Medeiros
Em um tempo bem distante e quase infinito, reuniram-se todos os Deuses para trocarem experiências, comentarem o que haviam feito e o quanto eles puderam melhorar suas qualidades originais de antes do começo de tudo...
Já por diversas vezes reunidos, elegeram o líder, juízes, anotadores e demais participantes do quadro de julgamento do que faziam ou competiam. Sempre que uma ação era começada, continuada e parada, eles se reuniam para discutirem o que foi bom e o que não desejam mais para os próximos eventos.
Nesta ocasião em especial, estavam tratando de um novo divertimento ou jogo, para testarem suas condições melhoradas e poderem adquirir evoluções para distrações ou competições cada vez mais elaboradas.
A experiência que agora decidiram fazer e provar o efeito, um portal para uma grande floresta cheia de vida. Flores, frutas, animais, muitos rios, planícies e montanhas. Eles seriam os pássaros! Viveriam como passarinhos por um milhão de anos. Sabiam eles, de antemão, que seus corpos não resistiriam tanto e que teriam vida após vida em corpos de passarinhos até que esta ação fosse parada ou terminada no prazo previsto. Quando esta experiência terminasse, voltariam ao ‘estado original de espíritos Deuses’ e iriam se reunir para preparar uma nova ação mais avançada e com outras barreiras, um jogo sempre melhor...
Fora do jogo de corpos de passarinhos, ficou apenas a comissão que assistiria esta aventura, seriam os guardas do lado de fora. Afinal, todos os Deuses em corpos de passarinhos, não teriam as condições básicas ou memória de quem de fato eram antes do jogo, esta era a grande barreira. Não poderia mesmo ser diferente, viver em corpos de passarinho e ao mesmo tempo serem Deuses não seria possível ou não teriam barreiras, portanto, não teriam vitórias!
E assim, os Deuses entraram no portal para viverem como passarinhos, naquela linda floresta. Cada um havia escolhido que passarinho desejaria ser e assim foi. Sim, foi muito divertido. Passava o tempo, morriam os corpos e eles então, ficavam à procura de novos ninhos em suas famílias, em busca de ovos para fazerem ali seus novos corpos. Claro que algumas vezes tinham que enfrentar fila, mas sempre davam um jeito de assumirem novos corpos, sem se darem conta de que de fato, ERAM DEUSES!
Do lado de fora, tudo era acompanhado pela comissão. Possivelmente não era tão divertido como estar lá vivenciando aquela experiência. Porém, tiveram também suas experiências e mente desocupada... (???) Um Deus da comissão teve uma idéia brilhante no ponto de vista dele. Não se preocupou em pensar no ponto de vista dos que estavam no jogo como passarinho, ao contrário, achou muito divertido, sem que ninguém soubesse na comissão, fazer um joguinho particular: Ele iria interferir, fazendo com que os passarinhos dependessem para tudo, ou seja, criou a condição de que ele é quem havia criado tudo, incluindo os próprios passarinhos!
Quando a experiência acabou, um milhão de anos depois, foi des-criado o portal e pouquíssimos Deuses retornaram à condição original. Os demais passarinhos continuavam pensando que eram criaturas passarinhos e não os próprios criadores do campo de jogo ou a floresta... Agora, apenas em espírito, todos estes passarinhos ficaram ‘prisioneiros’ daquele Deus da comissão!
Insistentemente os Deuses que conseguiram sair sem ficarem presos nas armadilhas, tentaram convence-los de que eles não eram passarinhos. Não funcionava. De fato, tentaram de tudo, até que desconfiaram de que algo fora do jogo havia acontecido...
Reuniram-se todos os que haviam conseguido sair do jogo e a comissão, para discutir esta questão dos Deuses presos no jogo. O que poderiam fazer?
E o Deus sacana calou, dava apenas pistas falsas e idéias que não levariam a nada. Então, só havia de fato uma maneira de resolver. Descobrir o que havia acontecido! Muito tempo passou até que finalmente um dos Deuses descobriu que todos os demais passarinhos foram vítimas do Deus da comissão, pois conseguiu provar como ele teria feito isto e porque alguns não tinham ficado presos na estratégia dele. Afinal, apenas os que nunca deram bola para aquele Deus, não foram presos por sua vontade e traição, não deram ‘ouvidos’ para ele, nem mesmo na condição de passarinhos, era algo muito forte dentro deles mesmos.
Enfim, o causador de tudo descoberto, a maneira como fez a trapaça também, mesmo assim tiveram dificuldade em passar isto para os ‘passarinhos prisioneiros’ que só obedeciam ao Deus da comissão. Os prisioneiros estavam na condição de passarinhos, não tinham condição de compreender tudo aquilo, suas mentes eram desprovidas da memória divina!
Então, só houve uma solução: Começar o jogo novamente, para poder então, libertarem os passarinhos prisioneiros daquela condição.
Não pensem que foi algo fácil. Afinal, apenas membros da comissão é que tinham a memória de tudo, da verdade, da origem de tudo para fazerem com que os passarinhos religassem às condições básicas que possuíam.
Finalmente, chegaram à conclusão que um membro da comissão iria para a floresta com a intenção de ajudar os demais a compreenderem a situação, precisava ele ter também um corpo de passarinho!
Quando este bom deus da comissão foi viver com os demais, percebeu que a dificuldade era muito maior do que os de foram pensavam. Tentou diversas formas de fazer com que os passarinhos compreendessem o jogo e que eles próprios eram Deuses e não criaturas. Que aquele que eles admiravam não era o deus que eles elegeram como líder do jogo, mas um outro que os havia traído. Passou diversos ensinamentos, meios como os passarinhos poderiam se tocar, mas nada adiantava... Até que ele próprio perdeu o corpo de passarinho. Mas, ele tinha uma condição diferente dos demais, não estava preso nas armadilhas do deus da comissão.
Assim, este bom Deus da comissão, novamente teve um corpo de passarinho, agora com mais experiência no sentido de tentar salvar os demais. Quando novamente começou a contatar os passarinhos, com mais incisão, com até certa rebeldia com os costumes deles, alguns até tentaram compreende-lo, mas a grande maioria queria mesmo é que ele morresse! Ele insistiu e disse que voltaria novamente.
A última notícia que eu soube é que ele voltou e com mais experiência ainda (agora mestre de jogos), conseguiu finalmente a liberdade de alguns passarinhos e estes, não abandonaram a floresta, continuaram a viver nela para poderem levar a liberdade para os demais. Não está sendo fácil, os passarinhos nem imaginam, mas existe certeza de que todos eles conseguirão finalmente compreenderem o jogo, entenderem que também eram Deuses e que juntos em concordância havia criado tudo! Este se tornou o jogo dos jogos, afinal, era o jogo de libertação!
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